É estranho não ter você aqui, pai. Até hoje, dois anos depois da sua partida, ainda dói pensar em você. E pensar que há dois anos, eu fui tirada da cama pela minha mãe e vi o rosto dela banhado em lágrimas, assim como o da minha irmã… Eu sabia que algo muito ruim tinha acontecido. E quando vi a porta do seu quarto aberta, a porta que vc insistia que ficasse fechada pra Sophia não entrar, entendi que você não estava ali.
E a ficha caiu. Você não estava ali, minha mãe e minha irmã chorando sem parar. Você não estava ali. E não estaria mais.
Lembro só da manhã daquele dia. Lembro de acordar no susto, com as batidas na porta. Eram 6 e qualquer coisa. Cedo demais pra um sábado. Lembro de ter pensado que algo ruim tinha acontecido, só por isso poderiam estar me chamando tão cedo. Achei que tinha sido algo com minha avó. Mas não.
Eu sentei na cadeira do computador. Mas eu não chorei. Acho que não tinha entendido ainda. Alguém passava a mão nas minhas costas e me disse que eu estava em choque. Me disse pra chorar, mas eu não conseguia. Meus primeiros soluços foram secos. Não me lembro de ter me vestido, mas troquei de roupa. Tomei café no automático também. Entramos no carro. Não lembro se eu chorei.
A UPA estava bem vazia naquele sábado. Era cedo demais pra se estar doente. Não lembro se estava chorando. Minha tia apareceu lá. Não sei quem ligou pra ela, nem quando, mas quando dei por mim ela estava lá. Lembro da minha irmã dizendo que tinham colocado você num saco preto. Ela mal conseguia falar de tanto que chorava.
Em algum momento, fomos pro lado de fora. Estava nublado, mas o sol parecia que queria sair. Me ofereciam água e comida, mas eu recusei. Eu tinha comido mais cedo, mas mesmo de barriga vazia, eu não ia aceitar nada. A essa altura, eu já estava chorando. Não conseguia parar. Ouvia minha mãe contar: ele estava se sentindo mal desde a noite anterior. Mal conseguiu dormir. De manhã cedo, minha mãe chamou minha irmã pra levá-lo pra emergência. Lembro de ouvir ela dizer que meu cunhado carregou ele no colo pra fora do carro e porta adentro e entrou chamando ajuda e dizendo o que era necessário pra assegurar atendimento rápido (ele é enfermeiro).
Lembro de estar em um balanço, na praça em frente à UPA e postar no Facebook, pedindo pro sol brilhar bem forte, pra iluminar a chegada dele. Lembro de ouvir minha irmã falando que tinha comunicado ao plano funerário e eles cuidariam de tudo, mas não teria como realizar o sepultamento naquele dia mesmo. Ficaria pro domingo de manhã.
Não lembro do resto do sábado. Lembro do domingo. De acordar e me vestir e pensar que não devia usar blusa vermelha. Li isso numa revista de etiqueta. Que coisa idiota pra se lembrar. Devo ter tomado café. Sinceramente, não sei. Entramos no carro. Quando chegamos no cemitério, dei a mão pra minha mãe. Ela entrou na capela e eu parei na porta. Não quis entrar. Não queria ver, não queria ter essa lembrança. Não vi meu pai morto. Todos entenderam.
Um monte de gente chegou. Muitos abraços, muito choro, Minha cabeça já doÃa de tanto chorar. Lembro de uma senhora que me contou uma história triste. Não lembro mais da história, mas tinha uma moral positiva. Minha irmã disse depois que devia ter sido um anjo. Lembro de ter achado que ela (a senhora) era meio intrometida.
As pessoas cantavam e rezavam e eu só conseguia chorar. Lembro da minha irmã e da minha mãe, lembro de querer nunca me afastar delas. Mais orações, mais lágrimas e estava feito. O caixão lacrado na gaveta. Lembro que parecia que eu estava uma experiência fora do corpo. Tudo era extremamente surreal.
Fomos embora. O carro estava cheio, acho que eu fiquei no colo da minha irmã. Lembro que ela tentava me fazer rir. O restante do domingo passou e eu nem senti.
E isso já tem dois anos. Dois anos sem você, pai.
Eu te amo.
Estou me propondo o exercÃcio de escrever hoje também. As pretensões estão lá embaixo, afinal, a essa altura do campeonato, já desisti de criar expectativas quanto a meu comprometimento.
Eu queria tanto não sentir tanta preguiça e desânimo e poder escrever e desenvolver meus blogs, fazer as roupas das dolls.
Eu sinto vontade de fazer uma coisa e quando faço, tudo passa. A vontade some, o desejo passa, fica só o vazio… Foi assim com as dolls, está sendo com as roupas das dolls, foi assim com o biscuit, a costura, o planner, todas vontades “satisfeitas” seguidas de vazios.
E ainda se eu me dedicasse a essas coisas de fato! Mas não, eu tento e falho e desisto. É um ciclo. Eu me interesso, tento, falho e desisto. Sempre. A única coisa a que me dediquei mesmo, aprendi e gostei foi o bordado. Nem ao teclado eu me dediquei de verdade. Tinha vergonha de que me ouvissem tocar então quase não tocava. Hoje, vinte anos depois, tenho vergonha de que me ouçam costurar e de que perguntem o que fiz e me julguem pelo resultado ruim.
Tenho vergonha de que me vejam jogar e me julguem por ser “noob”. Tenho vergonha de dançar e cantar porque o que as pessoas vão pensar? Não, deixa pra lá. Eles têm uma visão de mim (uma visão que eu nem conheço), é melhor deixar que fiquem com ela, seja qual for. “Stick to the status quo”, já cantava Sharpay.
Eu nem sei como terminar esse post. Eu podia dizer que vou mudar, vou fazer e acontecer, vou ser uma pessoa melhor, mas eu me conheço bem demais. Eu sei que tudo vai continuar do mesmo jeito. Um ciclo infinito de interesse, falha e desistência.
Xoxo.
(esse texto foi postado originalmente por mim, em outra plataforma)
Oh Deus. Lá vou de novo arrumando um novo jeito de complicar uma coisa simples. Pra que baixar uma app de diário se existe a boa e velha agenda de papel? Aà a pessoa diz: “Mas o app me ajuda porque posso escrever em qualquer lugar!” Hm… Gata, você tem dois aplicativos para escrever no tablet e quantas vezes você os abriu? 2? Por aÃ, né?
Inspiração vem da ação.
Você quer escrever? Escreve. A preguiça é uma ilusão. Lembra dos velhos tempos? Escrevemos uma fic de 20 capÃtulos. Escrevemos outra de 12 ou 15 antes dessa. Lembra? E as one-shot? EscrevÃamos mil palavras fácil. Lembra? Rolava da nossa cabeça através das nossas mãos e era fácil? Não. Só parecia. A gente quebrava a cabeça, torcia as ideias até o talo, revirava o projeto, apagava e reescrevia, sentia raiva… E todas as vezes que vinha uma ideia nova que nos consumia? A gente não conseguia pensar em mais nada porque só a ideia nova importava.
Mas como sempre, como a ideia antiga, a nova era uma vela frágil. Apagava rápido. E mais rápido dessa vez, da última vez. A última estória que eu não terminei. 20 capÃtulos. Já tinha feito isso antes. Mas o tesão já tinha passado, a obsessão não era forte o suficiente. Passou, acabou. E a vontade de escrever foi junto. Não, o assunto foi junto. A vontade ficou, gritando, pedindo, me esmurrando por dentro. E como boa masoquista, deixei. Senti, doÃ. Me acostumei. Era mais fácil. Melhor que ter o trabalho de criar, de dar vida. É difÃcil sim. Mas tão bom também.
Então, o que realmente te prende, menina? Você tem medo de que?



