Dia 3: dois anos sem você
18:56
É estranho não ter você aqui, pai. Até hoje, dois anos depois da sua partida, ainda dói pensar em você. E pensar que há dois anos, eu fui tirada da cama pela minha mãe e vi o rosto dela banhado em lágrimas, assim como o da minha irmã… Eu sabia que algo muito ruim tinha acontecido. E quando vi a porta do seu quarto aberta, a porta que vc insistia que ficasse fechada pra Sophia não entrar, entendi que você não estava ali.
E a ficha caiu. Você não estava ali, minha mãe e minha irmã chorando sem parar. Você não estava ali. E não estaria mais.
Lembro só da manhã daquele dia. Lembro de acordar no susto, com as batidas na porta. Eram 6 e qualquer coisa. Cedo demais pra um sábado. Lembro de ter pensado que algo ruim tinha acontecido, só por isso poderiam estar me chamando tão cedo. Achei que tinha sido algo com minha avó. Mas não.
Eu sentei na cadeira do computador. Mas eu não chorei. Acho que não tinha entendido ainda. Alguém passava a mão nas minhas costas e me disse que eu estava em choque. Me disse pra chorar, mas eu não conseguia. Meus primeiros soluços foram secos. Não me lembro de ter me vestido, mas troquei de roupa. Tomei café no automático também. Entramos no carro. Não lembro se eu chorei.
A UPA estava bem vazia naquele sábado. Era cedo demais pra se estar doente. Não lembro se estava chorando. Minha tia apareceu lá. Não sei quem ligou pra ela, nem quando, mas quando dei por mim ela estava lá. Lembro da minha irmã dizendo que tinham colocado você num saco preto. Ela mal conseguia falar de tanto que chorava.
Em algum momento, fomos pro lado de fora. Estava nublado, mas o sol parecia que queria sair. Me ofereciam água e comida, mas eu recusei. Eu tinha comido mais cedo, mas mesmo de barriga vazia, eu não ia aceitar nada. A essa altura, eu já estava chorando. Não conseguia parar. Ouvia minha mãe contar: ele estava se sentindo mal desde a noite anterior. Mal conseguiu dormir. De manhã cedo, minha mãe chamou minha irmã pra levá-lo pra emergência. Lembro de ouvir ela dizer que meu cunhado carregou ele no colo pra fora do carro e porta adentro e entrou chamando ajuda e dizendo o que era necessário pra assegurar atendimento rápido (ele é enfermeiro).
Lembro de estar em um balanço, na praça em frente à UPA e postar no Facebook, pedindo pro sol brilhar bem forte, pra iluminar a chegada dele. Lembro de ouvir minha irmã falando que tinha comunicado ao plano funerário e eles cuidariam de tudo, mas não teria como realizar o sepultamento naquele dia mesmo. Ficaria pro domingo de manhã.
Não lembro do resto do sábado. Lembro do domingo. De acordar e me vestir e pensar que não devia usar blusa vermelha. Li isso numa revista de etiqueta. Que coisa idiota pra se lembrar. Devo ter tomado café. Sinceramente, não sei. Entramos no carro. Quando chegamos no cemitério, dei a mão pra minha mãe. Ela entrou na capela e eu parei na porta. Não quis entrar. Não queria ver, não queria ter essa lembrança. Não vi meu pai morto. Todos entenderam.
Um monte de gente chegou. Muitos abraços, muito choro, Minha cabeça já doía de tanto chorar. Lembro de uma senhora que me contou uma história triste. Não lembro mais da história, mas tinha uma moral positiva. Minha irmã disse depois que devia ter sido um anjo. Lembro de ter achado que ela (a senhora) era meio intrometida.
As pessoas cantavam e rezavam e eu só conseguia chorar. Lembro da minha irmã e da minha mãe, lembro de querer nunca me afastar delas. Mais orações, mais lágrimas e estava feito. O caixão lacrado na gaveta. Lembro que parecia que eu estava uma experiência fora do corpo. Tudo era extremamente surreal.
Fomos embora. O carro estava cheio, acho que eu fiquei no colo da minha irmã. Lembro que ela tentava me fazer rir. O restante do domingo passou e eu nem senti.
E isso já tem dois anos. Dois anos sem você, pai.
Eu te amo.

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